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  • Pablo R. S. Lazarini

A tecnologia na desconstrução do pensamento

Leroy E. Emkin, fundador e codiretor da Computer Aided Structural Engineering Center e professor da escola de engenharia civil do Georgia Institute of Technology em 1998 publicou no Congresso Mundial de Engenharia Estrutural um artigo intitulado Misuse of computers by structural engineers - a clear and present danger no qual ele defende que a engenharia civil, principalmente no que tange a engenharia estrutural precisa tomar cuidado com a formação de novos engenheiros que tendem a utilizar um caminho fácil de dimensionamento estrutural com auxílio de softwares, negligenciando os princípios de mecânica, de materiais e resistências teóricos, alocando toda a credibilidade da engenharia estrutural em respostas semi-prontas fornecidas pelo computador, abolindo qualquer verificação manual, ou seja, utilizando a formação acadêmica apenas como um mal necessário para obtenção do diploma.

É evidente que a difusão da informação transformou a evolução da humanidade. Se antes podíamos admitir que evoluíamos linearmente, com a internet o crescimento passou a ser exponencial. Prova disso é o cultivo agrícola, por exemplo. Até meados do século XX, nossa tecnologia de produção era a enxada, os carros de boi e os arados manuais, produção artesanal que durou gerações, desde que o homem passou a ser sedentário esses eram basicamente os instrumentos disponíveis. Hoje existe a agricultura de precisão e máquinas, colheitadeiras, semeadeiras e recursos que fazem parecer que há 60 anos vivíamos nas trevas, como quase seminômades.


A evolução da tecnologia mudou esse cenário

Tal avanço se deu, entre outros fatores, pela difusão e compartilhamento do conhecimento, principalmente através da internet. Ela tornou a nossa vida mais fácil, temos o conhecimento na palma da mão com smartphones e tablets. O problema é que tanta informação chega a cegar. É mais fácil ler uma manchete sensacionalista no Facebook hoje, do que aferir se tal informação é realmente verdadeira. Não é segredo que as mídias, visando aumentar o ibope (ou em termos mais atuais, aumentar a quantidade de retweets ou compartilhamentos), sempre distorceu algumas informações para promover o espanto na manchete, e não é de se estranhar que a mesma mídia faça isso com pesquisas científicas, prova disso é que não raro nos deparamos com supostas pesquisas absurdas, como por exemplo: Um estudo publicado em abril na revista científica "International Archives of Medicine" chegou à conclusão de que comer chocolate "aumenta significantemente" as chances de emagrecer durante uma dieta.


É mais fácil ler uma manchete sensacionalista no Facebook hoje, do que aferir se tal informação é realmente verdadeira

Assim, se por um lado a informação chega mais fácil, por outro, é inevitável querer usar atalhos para absorver apenas a informação que “interessa”.

(In)felizmente essa é a tendência da informação, e a nova tendência para também a prestação de serviços. Uber, iFood e WhatsApp estão aí para mostrar que é possível eliminar uma etapa, dá para cortar caminho. O próprio telefone pode facilmente substituir um atendente, um intermediário ou um profissional. Talvez não demore surgir aplicativos que façam diagnósticos de saúde, ou petições e tramites judiciais (se já não existirem), o que coloca a humanidade em um caminho arriscado.

Em 1998, Emkin já previa que o caminho que tomávamos era perigoso, que o verdadeiro engenheiro estrutural deve se preocupar em saber e avaliar o que os softwares estão fazendo. Porém, aparentemente a humanidade não compreendeu ou distorceu o papel da tecnologia em nossas vidas. A intenção era que ela viesse colaborar e não substituir a inteligência humana.

Não é apenas uma questão de resistência ou paradigma, é uma questão de ciência. A construção de uma teoria cientifica deve atender diversos comportamentos em situações específicas, de maneira a tentar demonstrar uma suposta verdade. Então se por um lado houve avanço significativo na difusão da informação, parece que por outro lado a tendência é compensar com falta de inovação. Fazendo uma análise e admitindo que o iPhone tenha sido a “invenção” mais revolucionária dos últimos anos, quais foram os reais benefícios que ele trouxe? Quer dizer, nós já tínhamos aparelhos celulares que tiravam fotos e mandavam mensagens, o touch screen também não era nenhuma novidade, a inserção de aplicativos pode ser sido a grande sacada, todavia, ainda assim, se o iPhone for comparado com a invenção da roda, por exemplo (invenção essa bem mais simples), a roda foi muito mais útil, a penicilina, a machadinha pré-histórica, a domesticação do fogo, a própria “invenção” da escrita, entre outras invenções, foram muito mais revolucionárias do que o iPhone.


A roda foi muito mais útil para humanidade do que o iPhone

Trazendo essa análise para a engenharia e construção civil, quais foram os maiores progressos em termos de materiais, estruturas ou processos construtivos dos últimos anos? Se verificarmos a nível Brasil, estamos ainda bitolados à fábula dos três porquinhos, onde as paredes devem ser de alvenaria, que é o que mantém a casa de pé. Com muito custo esse paradigma está sendo quebrado para a inserção de sistemas construtivos diferentes, como o steel frame, tecnologia essa que é usada há anos na Europa, Japão e América do Norte. Fora isso, na prática não se vê muita novidade. Ou seja, nossa evolução era linear, passou a ser exponencial, contudo, parece que estamos chegando a um ponto de inflexão, estamos parando de produzir e estamos delegando à “inteligência” artificial nossa maior capacidade, a capacidade de pensar e criar. Prova disso é a imensa resistência do uso de livros para realização de um trabalho acadêmico, por exemplo, é mais fácil procurar no google do que ler um livro. O ctrl+c e o ctrl+v é o roteiro da pesquisa, e não é de hoje. E se essa tendência ocorre para trabalhos acadêmicos, ocorre também para a elaboração de projetos. O software simula uma estrutura e aponta com gráficos de cores o que atende supostamente às normas e é extremamente fácil encaminhar um projeto para a execução.


Caminho mais fácil para o "dimensionamento"

Não é nostalgia dizer que antigamente era melhor ou pior, é bom senso avaliar que sem os recursos computacionais, os engenheiros precisavam dedicar muito tempo na solução de um projeto, o que era um processo eventualmente cansativo, porém muito cuidadoso. Os softwares não surgiram para substituir essa função, apenas vieram colaborar com as resoluções de cálculos matemáticos, que antes levavam mais tempo para serem realizados. No entanto, como os elementos estruturais ficam geralmente vermelhos quando não atendem os dimensionamentos realizados na simulação computacional, a tendência não é avaliar com olhos de engenheiro o problema, não importa muito saber o porquê aquele elemento está vermelho no software, o que importa e o que se faz é aumentar a seção transversal do elemento até que as condições apontadas pelo programa sejam atendidas. Ou seja, não é mais preciso fazer um curso de engenharia civil para fazer um projeto estrutural, qualquer operador que saiba utilizar o software já consegue projetar. Os cursos de engenharia civil têm a nova finalidade de fornecer um diploma que garante a possibilidade de assinar uma anotação de responsabilidade técnica.


Os softwares não surgiram para substituir essa função, apenas vieram colaborar com as resoluções de cálculos matemáticos, que antes levavam mais tempo para serem realizados

Ora, se a tendência é substituir um intermediário, talvez logo também surja um aplicativo que substitua também o operador do software, que faça automaticamente o lançamento e dimensionamento estrutural, e se isso ocorrer, eliminamos a engenharia do mundo, chegaremos finalmente ao ponto de inflexão da curva e partimos ladeira abaixo. É exagero admitir tal premissa? Talvez. Se ela for realmente acontecer, será que funcionará? Possivelmente a inteligência artificial consiga realizar tal prodígio, contudo o maior problema não é a tecnologia substituir a inteligência humana nesse aspecto, o problema é o que se fará no dia em que a tecnologia não conseguir resolver nossos problemas, afinal, com tanta negligencia ao conhecimento científico (que não é de hoje e aparentemente durará mais algumas décadas), será difícil retomar o que já se conhecia, porque talvez já não haverá mais ninguém para ensinar.

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